JAY-Z e sua ‘Narrativa de Formação’

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“Existe sempre a fantasia de que, num momento do futuro, será possível criar uma máquina que nos permitirá viajar através do tempo, da mesma forma como existem máquinas que nos permitem viajar através do espaço: bicicletas, carros, navios, aviões… Mas acontece que a dita máquina do tempo já existe. Só que ela não é feita com plástico e metais e nem é movida a gasolina. A máquina do tempo é feita com palavras. E ela se chama ‘literatura’.”

O fato de que o rap é um gênero musical com uma veia literária extremamente forte já é conhecido pelos fãs e críticos desta arte, desse modo, a citação do teólogo/filósofo/psicanalista/educador Rubem Alves funciona também para o rap. Realmente há músicas que funcionam como verdadeiras máquinas do tempo,  e nessa matéria pretendo explorar uma narrativa que nos transporta ao passado, especificamente a 4 de dezembro de 1969, data do nascimento do rapper Jay-Z.

Em ‘December 4th’, Jay constrói habilmente sua respectiva ‘narrativa de formação’, em que temos no cerne da canção a passagem da infância até a fase adulta, sendo que a narrativa musical alterna entre os versos sonoros e rítmicos do MC com os relatos de sua mãe relembrando a infância e a personalidade de seu filho, vale ressaltar que os relatos de Gloria Carter são saturados de amor, é impossível não sentir o peso de suas palavras.

No início da canção Gloria confessa: “Shawn Carter nasceu em 4 de dezembro, pesando 4 quilos e 800 gramas. Ele foi o último dos quatro filhos, o único que não me deu nenhuma dor no momento do parto. E foi assim que eu soube que ele era uma criança especial” É interessante notar que a fala da mulher tem um clima de profecia, um certo sexto sentido em ver que aquela criança recém nascida carregava com ela algo especial. O próprio rapper também enaltece através de suas rimas sua imagem de ‘Escolhido’, temos esse exemplo claro nas seguintes linhas: “Eu fui concebido por Gloria Carter e Adnes Reeves/ Que fizeram amor debaixo de uma figueira/ E que me tornaram o MC mais doente…”

Em grande parte do primeiro ato da música o MC explora de forma nostálgica e saudosista sua infância, porém a partir do finalzinho dessa parte a atmosfera da narrativa sofre uma reviravolta, o clima idílico sofre um rompimento e a inocência é substituída de forma drástica pela mentalidade da revolta/tristeza/confusão. Essa mudança radical se deu inicialmente por conta do assassinato de seu tio Ray, irmão de seu pai. A perda foi impactante para todos, e acabou deixando Adnes Reeves em estado de neurose em busca de vingança. Em certa entrevista Jay comentou sobre o caso: “As pessoas ligavam no meio da noite e contavam ao meu pai: O assassino está aqui!” Jay-Z continuava: “Então meu pai levantava, pegava sua arma e saía para procurar o cara…” Toda essa situação acabou fazendo com que Adnes entrasse numa depressão profunda e recorresse ao álcool e a heroína, consequentemente ocorreu a separação do casal e Jay sentiria o vazio dilacerar sua alma, como podemos evidenciar nas seguintes rimas: “Fui uma criança dilacerada, uma vez que meu pai desapareceu/ Eu fui para escola, tinha boas notas, me comportava muito bem/ Mas eu tinha demônios lá no fundo que me confrontava” 

O trauma levaria o eu-lírico para um lado obscuro, consequentemente Jay iniciaria sua caminhada no tráfico de drogas e se sentiria como uma espécie de deus: “Agora sou um traficante/ Meus acessórios se destacam no meio da multidão/ E todas as garotas brancas estão me amando agora/ Minha autoestima está lá em cima mano, tenho estilo”. Mas não era apenas o tráfico que dominava sua vida naquela época, o rap também estava presente, porém Jay precisava ganhar dinheiro para sobreviver e ajudar sua família e por isso continuava no tráfico, tendo de deixar o rap em segundo plano.           

Então chegamos ao terceiro (final) ato da narrativa musical, mas antes dos versos do MC, surge novamente mais um relato de sua mãe rememorando a infância do filho: “Shawn ficava na cozinha, batia na mesa fazendo sons de rap, até as primeiras horas da manhã, então eu comprei um boombox. E as suas irmãs e irmãos disseram que não levaria a nada, mas essa foi a minha maneira de mantê-lo perto de mim e longe de problemas” A confissão de Gloria representa perfeitamente a paixão de seu filho pelo rap, sendo que neste relato temos novamente um tom de profecia, aquilo era realmente forte na vida de Jay, não tinha como ele não se tornar um rapper, e é no terceiro ato da narrativa que a profecia finalmente se cumpre. Jay-Z rima sobre quando deixou o tráfico de vez, já que o perigo e a neurose eram constantes em sua vida, ele poderia ser assassinado a qualquer momento. Então, após sair dessa vida, o eu-lírico mergulha de vez em sua grande paixão, é impressionante como sentimos a empolgação que emana da voz de Jay-Z em seus últimos versos, um feito efetivado conscientemente para que o ouvinte percebesse o quanto era importante o começo de uma nova vida para Shawn Carter. Uma nova vida que já era destinada desde pequeno, uma profecia que foi proclamada e cumprida.

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