Racionais MC’s e a Arte do ‘Storytelling’

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O Homem na Estrada’ e ‘Diário de um Detento’ são exemplos de músicas com estruturas dramáticas (narrativas com personagens e progressão do enredo com clímax e desfecho) que certamente encontram-se imortalizadas na história do Hip-Hop, principalmente pela habilidade de Mano Brown por ter narrado suas histórias de forma tão meticulosa, conduzindo o leitor/ouvinte à surpresa de um desfecho inesperado e frequentemente trágico, desse modo, vale ressaltar que o rapper adotou um estilo shakespeariano na construção de suas músicas.

Na canção ‘O Homem na Estrada’, temos uma narrativa com as seguintes características: linearidade narrativa; a revelação do drama humano que permeia a vida do ex-detento; a verossimilhança; o retrato direto da realidade em seus elementos históricos e sociais. Em relação a sua estrutura narrativa, podemos observar que o tempo de narração coincide com o tempo de ação, ou seja, a história ocorre no presente do indicativo, desse modo, temos a dinamização do enredo e também o aumento da tensão narrativa.

Mano Brown além de construir habilmente o perfil de seu personagem, também traça o retrato fiel do ambiente em que ele está inserido, podemos observar esse elemento nas seguintes rimas: “Equilibrado num barranco um cômodo mal acabado e sujo, porém, seu único lar, seu bem e seu refúgio / Um cheiro horrível de esgoto no quintal, por cima ou por baixo, se chover será fatal.”

Outro fator importante de lembrar é que a história contém uma fusão de narrações, sendo que alguns dos trechos são na 3ª pessoa do singular, com um narrador onipresente vendo a história de fora, enquanto outros trechos são narrados na primeira pessoa, e são justamente nesses momentos que a narrativa ganha um ar sufocante, já que se torna mais fácil para o ouvinte compartilhar dos anseios do personagem. Especificamente no último ato da narrativa temos nossos centros nervosos alterados quando ouvimos o personagem confessando ao ouvinte seu maior medo: “Se eles me pegam, meu filho fica sem ninguém / É o que eles querem: mais um pretinho na FEBEM / Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim, a gente sonha a vida inteira e só acorda no fim, minha verdade foi outra, não dá mais tempo pra nada…”

Em ‘Diário de um Detento’ temos como introdução o eu-lírico relatando ao ouvinte o local (São Paulo) e a data em que ele escreve, especificamente o dia 1º de outubro de 1992, véspera da chacina que matou 111 presos no Carandiru. O tema abordado na narrativa é o cotidiano da cadeia, vale ressaltar que a composição ficou por conta de Mano Brown e o ex-detento do Carandiru, Josemir José Fernandes Prado, o Jocenir, que inclusive escreveu seu livro e o batizou com o mesmo título da música.

Logo em suas primeiras rimas, o MC delineia habilmente a atmosfera de sua história, que é regada por tensão e neurose, já que o mesmo se vê vigiado a todo o momento, encontrando-se na condição de alvo das metralhadoras dos vigias.  Mano Brown adota  uma perspectiva de 360° no momento em que fala sobre a singularidade de cada um dos detentos, ele enxerga através do conceito ‘detento’, apresentando acima de tudo seres humanos com histórias de vida diferentes: “Cada detento uma mãe, uma crença/ Cada crime uma sentença/ Cada sentença um motivo, uma história de lágrima, sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo”

Em certo momento da narrativa musical, o eu-lírico conta que chegou um novo dia, 2 de outubro, a data em que ocorreu a chacina no Carandiru. Mano Brown conta sobre o simples acerto de contas entre dois presidiários que serviu como brecha para que o sistema exterminasse friamente 111 detentos. As rimas do MC fazem com que o ouvinte se coloque no lugar dos presidiários, é impressionante o modo como o efeito sensorial do desespero nos atinge em cheio através das seguintes linhas: “Avise o IML, chegou o grande dia/ Depende do sim ou não de um só homem/ Que prefere ser neutro pelo telefone/ Rá-tá-tá-tá, caviar e champanhe / Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe/ Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo/ Quem mata mais ladrão, ganha medalha de prêmio”.

A conclusão da narrativa é simplesmente estarrecedora, sendo que o rapper pinta de forma detalhista o cenário da tragédia: “Cadáveres no poço, no pátio interno/ Adolf Hitler sorri no inferno/ O Robocop do governo é frio, não sente pena / Só ódio e ri como a hiena/ Rá-tá-tá-tá, Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de sangue/ Mas quem vai acreditar no meu depoimento?/ Dia 3 de outubro, diário de um detento”.

O grupo Racionais MC’s é certamente uma das grandes lendas do rap nacional, e ao escutar ‘O Homem na Estrada’ e ‘Diário de um Detento’ não fica difícil entender o porquê de terem atingido o nível equivalente a de outros grandes contadores de história do Hip-Hop e também dos mestres da literatura.

Essa matéria é dedicada ao Jocenir, Racionais MC’s e a todos os familiares dos 111 homens que foram friamente assassinados na Casa de Detenção de São Paulo, Carandiru.

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