Rakim, Eminem e a reflexão metapoética

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No universo da literatura tivemos poetas que construíram algumas obras metapoéticas, ou seja, construíram poesias que tratavam sobre a própria poesia, realizaram a reflexão sobre o ato de escrever, sobre a relação do autor com a própria obra, os efeitos que a obra provoca no leitor, a sua relação com os leitores e com outros escritores. Alguns dos mestres que trabalharam com essa temática foram Charles Bukowski, sendo que podemos destacar poemas como: ‘Revelando a mágica’, ‘Assim que os poemas vão’, ‘Como ser um grande escritor’ e ‘Splash’; outro poeta que não podemos esquecer é João Cabral de Melo Neto, tendo feito trabalhos como: ‘Poema da Desintoxicação’, ‘O Fim do Mundo’, ‘A Porta’ e ‘Catando Feijão’.

No cenário Hip-Hop também temos artistas que nos propiciaram músicas que são verdadeiras reflexões metapoéticas, sendo que podemos destacar duas lendas em especial, são eles: Rakim e Eminem.

Em ‘My Melody’, o God MC aborda a construção da música, o ofício de rimar e também explora o âmago da linguagem lírica. A canção é realmente uma ode ao gênero musical reconhecido como Rap, além disso, consegue brilhantemente englobar os demais elementos da cultura Hip-Hop, já que Rakim faz referências ao graffiti, break e ao DJ. É interessante notar o modo como em certos momentos da canção Rakim parece conversar com o ouvinte, na própria introdução ele solicita ao ouvinte para que aumente o som e preste atenção no que estará por vir. Nota-se que o MC tinha consciência absoluta que ‘My Melody’ seria uma das músicas da obra-prima (Paid in Full) que alçaria o Rap a um nível mais elevado de Arte. Ele queria que os outros enxergassem o gênero musical como uma verdadeira ciência, e consequentemente ele era o melhor cientista para explorar caminhos até então inimagináveis. O ‘diálogo’ não fica somente entre MC e ouvinte, mas também se expande para God MC e os demais MC’s, já que Rakim em diversos momentos da música faz questão de exaltar sua técnica de escrita avançada, deixando evidente o fato de que naquele exato momento ele estava no topo da montanha. Ele era Deus dizendo aos simples humanos como deveria se fazer rap de um modo muito mais avançado, exaltando a importância da performance vocal do MC, do conteúdo lírico e principalmente de uma técnica mais elaborada de escrita, contendo a integração de rimas internas, rimas multi-silábicas e  metáforas extremamente sofisticadas  .

Vale ressaltar que ‘Paid in Full’ tinha um espírito metapoético forte, não era apenas ‘My Melody’que explorava essa temática, mas também canções como ‘I Know You Got Soul’, ‘I Ain’t No Joke’, ‘Move The Crowd’ e ‘As The Rhyme Goes On’.

No caso de Eminem, também temos um exemplo clássico de um MC que construiu músicas que funcionam como verdadeiras reflexões metapoéticas, sendo que podemos destacar em especial faixas como ‘Renegade’ e ‘Stimulate’.

Na faixa ‘Renegade’, Eminem rima sobre como suas narrativas musicais são interpretadas pelas pessoas, o MC mostra como alguns enxergam suas canções como molas propulsoras para que crianças e adolescentes sejam mais violentos, especificamente grande parte da mídia televisiva, jornais e revistas, que utilizaram o artista como bode expiatório inúmeras vezes. Eminem também fala que para algumas pessoas, ele é um Shakespeare moderno, sendo que este elogio ele chegou inclusive a ganhar pelo poeta irlandês Seamus Heaney (vencedor do Prêmio Nobel da Literatura em 1995), o poeta irlandês também fez a seguinte declaração: “Eminem criou um senso do que é possível. Ele enviou uma tensão em torno de uma geração. Ele fez isso não apenas através de sua atitude subversiva, mas também a partir de sua energia verbal”.

Em ‘Stimulate’, o MC reflete sobre o objetivo de quem está com o microfone em mãos, de como o ouvinte deve encarar a música, no qual deve saber, acima de tudo, separar o entretenimento da realidade. A música também tece uma crítica às pessoas que reclamam de seu conteúdo lírico, achando que ele deve ser uma espécie de modelo de comportamento para crianças e adolescentes. Eminem deixa claro que seu objetivo não é salvar ninguém, mas sim levar através de suas músicas a mente das pessoas a lugares jamais imaginados.

8 Respostas para “Rakim, Eminem e a reflexão metapoética

  1. Sensacional. Outro exemplo do Eminem que podia ser usado é “Sing For The Moment” ou “Like Toy Soldiers”. E outros artistas também, como Kendrick Lamar, Jay-Z, etc.

    Matéria perfeita!

  2. O jay z podia aprender com esses dois ai ,a ser lírico e um grande letrista coisa q o jay z n Eh !
    Rakim e eminem duas lendas vivas !! Essa foto Eh clássica !

      • Jay z Eh um bom rapper mas Eh fraco liricamente ! Muito abaixo de nas,eminem,rakim entre vários outros… Eh só ouvir renegade mostra claramente a diferença liricamente entre o hova e o shady, eminem destrui o jay z no som .

      • Jay-Z não é lírico? Que isso.. Jay-Z é bem técnico, tem um flow foda, e sabe rimar de diversas formas, inclusive contando histórias (só olhar o álbum “American Gangster”).

    • Youtube tem várias… Uma que destaco é “How to Emcee” que o Rakim parece estar ensinando aos caras como fazerem Rap e mete a linha “Se você é um gangstêr, te mostro como Poderoso Chefão faz..”. Várias letras do álbum “The Seventh Seal” são fodas, como essa que citei e “Holy are You”.

      • Rakim é mestre! Pai de todos. Bem lembrado, o disco American Gangster traz um conceito bem interessante. Storytelling puro.

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