Eminem, Jean-Claude Ramos Alphen e a busca pela inovação

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Em qualquer tipo de arte é sempre empolgante presenciar novos caminhos trilhados pelos artistas, seja na mudança da perspectiva de seu trabalho ou até mesmo quando o artista escolhe ir na contramão do gênero em que trabalha. Inovar requer arriscar-se em um caminho que muitas vezes não possui volta, ou seja, se o êxito ocorre o artista é brindado, mas se a mudança é para pior, muitas vezes torna-se praticamente impossível reerguer-se. Nesse post será abordada a inovação de dois artistas em suas respectivas artes, e como se saíram bem ao optarem pela exploração de novos horizontes, são eles: Jean-Claude Ramos Alphen na Literatura Infantil e Eminem no Rap.

Durante muito tempo e até mesmo atualmente uma fórmula em particular vem sendo utilizada inúmeras vezes na Literatura Infantil, trata-se de histórias sobre personagens deslocados (na maioria das vezes com alguma característica diferente dos demais que faz com ele seja excluído pelo grupo), a partir desse ponto de partida, o enredo tem sua progressão com o personagem tentando ao máximo fazer amigos, mas é sempre rejeitado, até que próximo ao desfecho da história, alguma qualidade/talento do personagem deslocado é descoberto pelos demais personagens, consequentemente ele adquire o respeito dos outros e conquista as amizades que tanto desejava, deixando de sentir-se triste por ser alguém solitário.

Jean-Claude Ramos Alphen destaca-se como um escritor/ilustrador que foi totalmente na contramão dessa fórmula em sua obra ‘Um Sujeito Sem Qualidades’, já que ele explorou de modo minimalista o cotidiano de um personagem solitário (Arnaldo) e como ele se sentia bem com isso, ao contrário de outros escritores que sempre delinearam personagens solitários com um tom de depressão e tristeza. É admirável o modo como Jean realiza nas páginas iniciais de sua obra uma espécie de ode a solidão, aos solitários que se sentem bem com sua própria pessoa, e que isso não é nenhum bicho de sete cabeças como foi pintado em tantas obras na Literatura Infantil, como também em outros tipos de arte – cinema, literatura, enfim, na própria sociedade mesmo, afinal a maioria das pessoas infelizmente ainda enxerga os solitários como seres estranhos, depressivos, tristes…

Vale ressaltar as passagens iniciais de ‘Um Sujeito Sem Qualidades’, em que observamos esse olhar diferenciado e positivo que Jean adotou sobre o seu personagem solitário, explorando com grande sensibilidade seu cotidiano: “Era uma vez um sujeito que gostava de viver só. Bem sozinho mesmo. Na verdade, Arnaldo era bom demais nisso. Tão bom, que era formado e pós-graduado. Poderia dar aulas em qualquer escola, ou até mesmo em alguma faculdade. Mas ninguém jamais o convidou. Ou melhor, ninguém jamais pensou nisso. Uma baita injustiça! / De manhã, acordava bem cedo e olhava aquela beleza de nascer do sol, jogava água gelada sobre a nuca peluda e grunhia de pura satisfação. Se alguém o ouvisse, ficaria assustado, ninguém nem mesmo o compreendia. Aquele era o seu supergrunhido de felicidade, mas todos os sanhaços, gralhas e pardais morriam de susto. Uma grande besteira!”

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A vontade de realizar amizades, conhecer outros animais surge de forma natural em Arnaldo no desenrolar da história, mas esse desejo está longe de funcionar como uma espécie de exaltar que havia algo totalmente errado em sua vida (o fato de ser solitário), mas sim apenas algo que ele deseja agregar para sua vida, e não uma mudança que era obrigatória a qualquer custo.

É então que o título da obra mais transparece – se nas demais obras do gênero literário os personagens conseguiam amigos por ter uma qualidade que os agradasse, agora Jean-Claude levantaria através de sua história a seguinte questão: O que aconteceria se o protagonista não tivesse qualidades que agradasse aos outros?

E ao tentar fazer amizades, Arnaldo não agrada a ninguém, pelo contrário, somente provoca impressões ruins. A cada vez que conhece novos grupos de animais, percebe que algumas de suas características(como por exemplo, bocejar de modo extravagante, adormecer do nada…) acabam fazendo com que ele seja motivo de piada, além disso, ninguém parece apreciar o modo como ele exalta as belezas da natureza, como retrata de modo poético  todas as riquezas que ela possui e que infelizmente passa despercebida pela maioria, essa é uma das qualidades de Arnaldo, mas para os demais isso não é nada, é chato/entediante, para os outros ele não é nada mais do que um sujeito sem qualidades.

Enquanto a história se encaminha para o desfecho, é impossível não se indagar com o que acontecerá com o sujeito sem “qualidades”, afinal tantas outras histórias nos apresentavam personagens que em certo momento da narrativa realizariam um feito heroico, chamando a atenção dos outros, e consequentemente ganhando respeito e admiração, e o final “feliz” logo viria… Mas os caminhos trilhados por Arnaldo não é de um “herói”, ou pelo menos ele não possui o tal “talento” e a “qualidade” capaz de conquistar os outros, que serviria como o passaporte para conquistar suas ‘amizades’, ‘admiração’, ‘respeito’… Enfim, o desfecho da história quando surge provoca grande impacto no leitor, abre seus olhos para outras obras distantes, mas muito distantes mesmo da realidade, alias é interessante notar como Jean utilizou animais em sua obra, o que dá um tom de fantasia, porém seu conteúdo, suas reflexões e desfecho são muito mais realistas do que tantas outras obras em que os escritores preferiram utilizar como personagens as pessoas, ao invés de animais, achando que o realismo seria maior, porém o conteúdo de suas histórias mais parecem contos de fadas forçados.

Jean preferiu dar um desfecho mais realista ao seu personagem, o que causa um estranhamento em muitos leitores que estão acostumados com os “finais felizes” de personagens solitários conquistando muitos amigos. Arnaldo ao ver que não era aceito pelos demais animais, simplesmente decide retornar para sua cabana no topo da montanha, para curtir a vista da natureza, e sim, continuar solitário, e curtir a si mesmo.

“Um Sujeito Sem Qualidades” é uma obra que precisa ser lida e relida, que conforme o passar do tempo, e também com o amadurecimento do leitor, ela só tem a evoluir, propiciando inúmeras reflexões, interpretações, debates, enfim, é uma obra literária à frente, mas bem a frente mesmo de seu tempo. Há pequenas coisas nela que são descobertas com a cada nova leitura, com a cada nova conversa que se tem com outros leitores sobre ela. É uma obra que, acima de tudo, mostra que a Literatura Infantil não é um gênero literário destinado somente para as crianças, que é uma literatura menor como infelizmente muitas pessoas a conceituam, ‘Um Sujeito Sem Qualidades’ ajuda a elevar os patamares desse gênero literário que sofre inúmeros estereótipos, que corre a margem, enfim, é uma obra que após lida, faz com que o leitor repense seu olhar para a Literatura Infantil, e não só isso, mas repense até mesmo sua perspectiva diante dos solitários do mundo, mas ela não faz isso através de um moralismo forçado e  do didatismo, e é graças a isso que seu valor estético é ainda maior. É interessante notar que nada ali é mastigado, pelo contrário, todas suas riquezas vão sendo descobertas através de bastante esforço intelectual realizado, a obra é algo a ser degustado aos poucos, com paciência, é certamente uma história a ser lida inúmeras vezes para que todas suas minúcias sejam captadas.

O autor foi corajoso ao optar pela inovação e realizou algo mais inteligente. Sem contar o fato de que adotou uma perspectiva que muitos irão morrer e nunca irão ter sobre os solitários do mundo. Vale ressaltar também que os frutos colhidos pela obra foram ótimos em termos de crítica e respeito, recebendo até mesmo da Fundação Biblioteca Nacional o Prêmio Glória Pondé em 2010.

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E agora transitando da Literatura Infantil para o Rap, um dos grandes nomes que também merece destaque quando o assunto se trata de inovação é o Eminem. Certamente o mc de Detroit desde o começo de sua carreira até esses últimos anos, sempre buscou por caminhos que fogem dos padrões. Em TSSLP, por exemplo, muitas de suas narrativas musicais tinham o drama como a vertente explorada, portanto o ouvinte logo imaginaria que sua performance vocal acompanharia seus temas, e consequentemente ele traria em sua voz a dor, o ódio, a tristeza, enfim, todos os sentimentos que emanavam de storytelings como: My Fault, Brain DamageGuilty Conscience, 97 Bonnie & Clyde, porém o mc de modo genial adotou uma perfomance vocal que fugia totalmente da esperada pelos ouvintes, sendo que ao adotar uma tonalidade vocal nasalada, personificada por Slim Shady, acabou fornecendo uma outra atmosfera para suas músicas, o tom dramático ganhou ares de uma espécie de desenho animado, toda a violência ganhou uma pitada cômica e também de ironia. Consequentemente o estranhamento é um dos efeitos sensoriais provocados nos ouvintes, afinal a performance vocal que vai na contramão das temáticas trabalhadas tira o ouvinte de sua zona de conforto, fazendo com que ele imagine e busque respostas/interpretações do porquê o rapper não utilizou uma performance e uma tonalidade vocal “adequada” para tais músicas.  Vale destacar que esse caminho de inovação tomado pelo mc não foi mero acaso, mas sim consciência do ofício, algo que ficou claro em uma de suas entrevistas quando falou um pouco sobre sua persona Slim Shady: “O Slim Shady é um personagem que eu criei… e acho que não é diferente… não sinto ele sendo diferente de um personagem de um filme, entende? Ou do “South Park”, o que fazem no “South Park” ou no “Family Guy”. Não acho que seja nada muito diferente disso… No final do dia eu sou um artista, e isso é a minha arte.”

Através de suas palavras fica claro não somente esse ar de violência cômica (característica muito utilizada em desenhos animados) criada de forma inovadora no projeto e nas suas faixas em que incorpora a persona de Slim Shady, alterando sua tonalidade vocal para algo mais nasalado, mas também nota-se sua compreensão perfeita do conceito de EU-LÍRICO, algo por mais simples que possa parecer – que inclusive até mesmo o Wikipédia resume em algumas linhas, ainda existe inúmeras pessoas que não conseguem realizar a dissociação entre a pessoa real e a entidade fictícia, consequentemente adotam um discurso regado pelo politicamente correto para criticar a pessoa, realizando uma verdadeira caça às bruxas em relação a trabalhos de mc’s como Big L, Eminem, Tyler, Notorious B.I.G., Kool G Rap, Scarface, Cube entre tantos outros dos quais possuem um conteúdo lírico julgado como “polêmico/sujo”, tendo como os mais caçados aqueles que trabalharam e trabalham principalmente com as vertentes: Hardcore, Horrorcore, Mafioso e Gangsta.

Eminem nessa entrevista não poderia ter sido mais didático, aliás em muitas de suas músicas ele inclusive chega a tocar no assunto, mostrando-se cansado com o fato das pessoas não entenderem o significado de eu-lírico, de confundirem o eu-poético com sua pessoa real, sendo que todas essas questões são trabalhadas de forma excepcional em seu clássico The Marshall Mathers LP, o tom metapoético foi realmente forte em algumas das faixas do projeto. No fim das contas, chamando a atenção para o fato de que os ouvintes deveriam encarar suas narrativas musicais do mesmo modo como encaram filmes, livros, histórias em quadrinhos.  Enfim, o discurso de Eminem é de que os ouvintes devem, acima de tudo, entender suas músicas como narrativas ficcionais regidas por um eu-poético/eu-lírico, simples assim.

Enfim, voltemos a falar sobre a questão da inovação na carreira do rapper, The Slim Shady LP foi um projeto de grande impacto, um álbum que inovou ao funcionar através de duas vias, e em cada uma delas provocar efeitos sensoriais diferentes nos ouvintes; a primeira via é a das palavras no papel, sendo que o ouvinte pode simplesmente lê-las e obter todo o drama e a dor que percorrem grande parte principalmente dos storytellings; a segunda via ocorre através da audição do álbum, em que o artista ao personificar Slim Shady e adotar uma tonalidade vocal nasalada – fugindo totalmente do previsível e do que supostamente é mais adequado a músicas de cunho dramático, propicia um estranhamento no ouvinte, o caráter dramático de suas músicas é amenizado e ganha ares de violência cômica de desenhos animados, conseguindo até mesmo tirar boas risadas dos ouvintes.

Na época de seu lançamento, TSSLP ganhou a atenção e respeito de outras lendas, sendo que até mesmo Busta Rhymes revelou que após ter escutado Guilty Conscience sofreu tanto impacto com o rap que acabou batendo com a cabeça no vidro do ônibus, quebrando-o. Sem contar o fato dos inúmeros prêmios vencidos e também da ótima recepção por parte da crítica especializada no gênero musical e dos ouvintes de rap.

Outra inovação que vale ressaltar em sua caminhada no Hip-Hop ( que pode ser visto principalmente em sua trilogia – TSSLP, TMMLP e TES), é o fato de que o rapper utilizou três timbres de vozes diferenciados, sendo que cada voz é dotada por uma personalidade peculiar, integrando teatralidade em seu trabalho. Sua música é decididamente declamada de forma intensa, causando os mais diversos efeitos sensoriais no ouvinte, percebemos a materialidade, o peso das palavras e sua estrutura acústica.

Inclusive, Adam Bradley, professor de Inglês da Universidade de Colorado – Boulder e autor do livro Book of Rhymes: The Poetics of Hip Hop, fez uma análise das diferentes performances vocais de Eminem: “O uso de múltiplas personalidades com estilos diferentes de rima do Eminem é a sua maior contribuição para o Hip-Hop. Como Slim Shady, há violência cômica em desenho animado, e a voz é mais autodestrutiva. Como Eminem, ele mostra o controle. Lose Yourself, por exemplo, fica entre dez e quatorze sílabas por linha… isto é uma questão de consciência do ofício, em vez de acaso. E como Marshall Mathers: Este é profundamente emotivo. Você ouve o amor e o ódio a si mesmo sendo interpretados em suas lutas pessoais e públicas”.

A fala de Adam Bradley não poderia ser mais perfeita, apesar de que julgar o uso de múltiplas personalidades do mc como sua “maior” contribuição seria injusto, principalmente pelo fato de Eminem ter realizado outras inúmeras contribuições, portanto seria mais justo dizer que essa é “mais uma das tantas” contribuições que o mc de Detroit realizou para o Hip-Hop.

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E para finalizar o post, vale destacar mais uma inovação que ocorreu nesses últimos anos, em especial uma faixa do Recovery – ‘You´re Never Over’, em que o tema se trata da perda de alguém querido, no caso Proof, e o modo como Eminem mais uma vez preferiu ir na contramão dos padrões que a temática dramática solicita, ou seja, a utilização de uma levada mais lenta e com uma voz  e conteúdo lírico regadas por dor, melancolia, tristeza… O mc preferiu inovar, utilizando-se de um flow mais rápido e com rimas em sua grande maioria direcionadas a celebrar a vida de seu amigo e prometer a si mesmo que continuaria com sua vida e também que tentaria manter sempre suas letras num nível diferenciado: “E em vez de lamentar a sua morte, eu vou é comemorar a sua vida/ Vou elevar a um novo patamar, muita gasolina e acelerar, vou precisar de dois microfones/ Pois o jeito como estou me sentindo hoje à noite, posso fazer tudo certo”.

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